Programa prevê capacitação de moradores de comunidades de baixa renda, mas especialistas e autoridades de segurança pública precisam discutir mecanismos de controle para evitar que conhecimento tecnológico seja apropriado por organizações criminosas
Por Nildo Costa
Brasília, 20 de agosto de 2026
O Governo Federal destinou R$ 200 mil para financiar um curso gratuito de pilotagem de drones destinado a moradores de comunidades de baixa renda do Rio de Janeiro. A iniciativa é conduzida pelo Ministério do Trabalho e Emprego, em parceria com o Instituto Brasileiro de Administração Pública e Apoio Universitário do Rio de Janeiro (IBAP-RJ).
O projeto prevê a formação de 100 pessoas, com capacitação para operar drones de pequeno porte, de até 250 gramas. A proposta inclui ainda conteúdos de empreendedorismo e preparação para atividades como produção audiovisual, mapeamento urbano, cobertura de eventos e inspeções técnicas.
A proposta oficial é ampliar as oportunidades de trabalho e renda para moradores das periferias e inserir esse público em um mercado tecnológico em expansão.
Mas a iniciativa também abre uma discussão que não pode ser ignorada: segurança pública.
O Rio de Janeiro enfrenta há anos o avanço de organizações criminosas que controlam territórios e buscam incorporar novas tecnologias às suas atividades. Em 2025, por exemplo, investigações da Polícia Federal apontaram a existência de pessoas suspeitas de fornecer equipamentos antidrones para integrantes de facções criminosas.
Em 2026, a situação continua preocupante. Dados divulgados pela Agência Brasil mostram que 34 tiroteios na região metropolitana do Rio, em julho, estiveram relacionados a disputas entre facções e milícias, o maior número registrado em um único mês neste ano.
É justamente nesse cenário que surge o questionamento sobre a capacitação financiada com dinheiro público.
Quem vai fiscalizar?
O problema não está na qualificação profissional de moradores de comunidades. Pelo contrário: oferecer formação e oportunidades de trabalho pode ser uma importante ferramenta de inclusão social.
A preocupação está em saber quais mecanismos de controle serão adotados para impedir que o conhecimento adquirido seja utilizado de maneira ilegal.
Drones podem ser utilizados para atividades legítimas, como filmagens, inspeções e mapeamento. Mas a mesma tecnologia também pode ser empregada para monitoramento de movimentação policial, vigilância territorial e outras atividades criminosas.
Por isso, diante da realidade do Rio de Janeiro, o programa deveria vir acompanhado de rígidos mecanismos de fiscalização, identificação dos participantes, acompanhamento das atividades profissionais e integração com os órgãos de segurança pública.
Outro ponto que merece esclarecimento é como será feito o acompanhamento dos alunos depois da conclusão do curso e quais medidas serão tomadas caso equipamentos sejam utilizados em operações ilegais.
Inclusão social ou risco tecnológico?
A pergunta que fica não é se moradores de comunidades devem ter acesso à tecnologia. Devem.
A questão é se o Governo Federal avaliou adequadamente os riscos de oferecer uma capacitação técnica em uma área que pode ter aplicação tanto profissional quanto criminosa em regiões onde organizações armadas exercem forte controle territorial.
O investimento de R$ 200 mil pode representar uma oportunidade para jovens e trabalhadores que buscam uma nova profissão. Mas, ao mesmo tempo, exige transparência, fiscalização e responsabilidade.
Em um Rio de Janeiro marcado pelo crescimento das organizações criminosas e pela disputa territorial entre facções e milícias, qualquer política pública que envolva tecnologias potencialmente úteis ao crime precisa considerar também o seu impacto na segurança pública.
O debate, portanto, não deveria ser sobre impedir o acesso das comunidades à tecnologia, mas sobre garantir que uma política criada para abrir portas para o mercado de trabalho não acabe, por falta de controle, criando novas oportunidades para o crime organizado.

